A demência é uma síndrome complexa que, em sua essência, representa um declínio gradual e muitas vezes devastador das funções cognitivas no Psicólogo em Natal. Não se trata de um simples esquecimento, mas de uma erosão progressiva da identidade, da capacidade de interagir com o mundo e de reter as memórias que nos definem. Para entender a jornada de uma família diante dessa condição, vamos acompanhar a vida de Dona Lúcia, uma professora aposentada de 75 anos, diagnosticada com Doença de Alzheimer.
Uma Vida de Sabedoria e o Primeiro Sinal Incomum
Dona Lúcia sempre foi um farol de lucidez e sabedoria. Professora de história por mais de 40 anos, sua mente era um arquivo de datas, nomes e histórias. Amava ler, resolver palavras cruzadas e conversar com suas netas sobre os fatos do mundo.
Seu filho, Ricardo, começou a notar pequenas coisas por volta dos seus 73 anos. No início, eram lapsos de memória apontados por um Psicólogo em Recife que ele atribuía à idade. Ela esquecia onde havia deixado os óculos ou repetia uma história algumas vezes. Ricardo, sendo um filho atencioso, não se preocupava excessivamente. “É a idade chegando”, pensava ele.
Os Sintomas Se Tornam Mais Evidentes: A Confusão Silenciosa de Dona Lúcia
Com o tempo, os “lapsos” de Dona Lúcia se tornaram mais frequentes e preocupantes. A clareza que a definia começou a dar lugar à confusão.
Observações de Ricardo e da Família – Trechos:
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Janeiro de 2023: “Minha mãe me ligou três vezes hoje perguntando a mesma coisa: se eu já tinha ligado para a irmã dela. Ela não se lembrava de ter perguntado antes, nem das minhas respostas. E ela se perdeu no caminho da padaria, que fica a duas quadras de casa, algo que ela faz há anos.” (Sintoma: Perda de memória recente, desorientação no tempo e espaço).
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Abril de 2023: “A Lúcia está com dificuldade para encontrar as palavras. Durante a conversa, ela para no meio da frase, ou substitui palavras por outras que não fazem sentido. Outro dia, ela chamou o controle remoto de ‘aquela coisa de mudar a imagem’.” (Sintoma: Dificuldade com a linguagem – Afasia).
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Julho de 2023: “Ela tentou cozinhar o bolo de fubá da receita da família hoje, que ela sempre fez de cor. Encontrei o fogão ligado, os ingredientes espalhados e ela chorando, frustrada, sem saber o que fazer. Ela não conseguia seguir a sequência das etapas.” (Sintoma: Dificuldade para planejar e resolver problemas, dificuldade para realizar tarefas familiares).
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Setembro de 2023: “Mamãe está diferente. Está mais apática, não quer mais ler, nem resolver as palavras cruzadas. Passa horas sentada, olhando para o nada. E está ficando irritada com muita facilidade, especialmente quando a gente tenta ajudá-la.” (Sintoma: Mudanças de humor e personalidade – apatia, irritabilidade).
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Dezembro de 2023: “Ela usou um casaco pesado no verão, e quando a Sofia tentou explicar, ela ficou confusa e chateada. Outra vez, quis sair de casa no meio da noite para ‘ir trabalhar’ – e ela está aposentada há 15 anos.” (Sintoma: Perda de juízo, confusão sobre o tempo).
A família de Dona Lúcia, especialmente Ricardo, começou a sentir o peso da situação. As preocupações aumentaram, e a vida de todos foi se adaptando à nova realidade imposta pela doença, ainda sem um nome. Ricardo percebeu que precisava de ajuda para entender o que estava acontecendo com sua mãe.
A Busca pelo Diagnóstico e a Aceitação da Realidade
Ricardo marcou uma consulta com um neurologista, o Dr. Almeida. Na primeira visita, Dona Lúcia estava um pouco relutante, minimizando seus problemas. Dr. Almeida conversou longamente com Ricardo, que relatou todos os sinais observados. Ele realizou um exame neurológico e testes cognitivos de rastreio, como o Mini-Exame do Estado Mental (MEEM).
Os resultados dos testes e o histórico fornecido por Ricardo levaram o Dr. Almeida a solicitar exames complementares, incluindo uma ressonância magnética do cérebro para descartar outras causas (como AVCs ou tumores) e exames de sangue para verificar deficiências vitamínicas ou problemas de tireoide.
Após uma análise cuidadosa, o Dr. Almeida diagnosticou Doença de Alzheimer em estágio moderado. Ele explicou a Ricardo que a doença era neurodegenerativa e progressiva, mas que havia tratamentos e estratégias de manejo para retardar sua progressão e melhorar a qualidade de vida de Dona Lúcia.
O Plano de Manejo: Adaptando-se à Nova Jornada
O plano de tratamento para Dona Lúcia foi multifacetado, com foco na estabilização dos sintomas e no apoio à família:
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Medicação: Dr. Almeida prescreveu um inibidor da acetilcolinesterase para tentar melhorar as funções cognitivas de Dona Lúcia e um medicamento para gerenciar a agitação e a irritabilidade que ocasionalmente surgiam. Ricardo foi instruído sobre a importância da adesão regular.
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Estimulação Cognitiva: A família foi orientada a manter Dona Lúcia envolvida em atividades que estimulassem o cérebro, mas sem causar frustração. Jogos de memória simples, leitura de livros infantis (com mais figuras), ouvir músicas antigas e ver fotos de família se tornaram parte da rotina.
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Terapia Ocupacional: Uma terapeuta ocupacional foi contratada para ajudar Dona Lúcia a manter sua independência em tarefas básicas. Adaptou a casa com barras de segurança no banheiro, retirou tapetes para evitar quedas e simplificou o ambiente para reduzir a confusão.
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Rotina Consistente: Ricardo e as netas estabeleceram uma rotina diária previsível, com horários fixos para refeições, banho e sono, o que ajudou a diminuir a desorientação e a ansiedade de Dona Lúcia.
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Apoio ao Cuidador: Ricardo, que se tornou o principal cuidador, buscou um grupo de apoio para familiares de pessoas com demência. Compartilhar experiências e aprender com outros cuidadores foi fundamental para sua própria saúde mental.
A Jornada Contínua: Amor, Paciência e Aceitação
A vida com a demência de Dona Lúcia foi uma jornada de adaptação constante. Houve dias bons, em que ela reconhecia Ricardo e as netas, e dias difíceis, em que a confusão e a agitação dominavam. As habilidades de Dona Lúcia continuaram a diminuir progressivamente. Ela perdeu a capacidade de se vestir sozinha, de se alimentar sem ajuda e, eventualmente, de se comunicar verbalmente.
Ricardo e sua família aprenderam a se comunicar de novas maneiras: através do toque, do olhar, da música. Eles se apegaram aos momentos de lucidez e se tornaram mestres na arte da paciência e da empatia. A memória de quem Dona Lúcia foi continuava viva nos corações de sua família, e eles se esforçavam para garantir que, mesmo em meio à progressão da doença, ela se sentisse amada, segura e digna.
Conclusão: Dignidade na Desmemória
O caso de Dona Lúcia é um retrato tocante da demência, uma condição que desafia a compreensão humana sobre a identidade e a mente. Sua história reforça a importância de:
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Reconhecimento precoce: Observar e agir diante dos primeiros sinais de declínio cognitivo significativo.
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Diagnóstico profissional: Buscar um neurologista ou geriatra para uma avaliação completa e precisa, que pode diferenciar a demência de outras condições tratáveis.
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Tratamento e manejo multifacetado: Combinar medicamentos (quando aplicável) com terapias não farmacológicas e adaptações ambientais.
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Apoio ao cuidador: Reconhecer o enorme fardo sobre os cuidadores e oferecer-lhes recursos e suporte.
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Empatia e paciência: Manter a dignidade e o respeito pelo indivíduo, mesmo quando a doença avança e a comunicação se torna um desafio.
A demência é uma doença que afeta não apenas a memória, mas a essência do ser. No entanto, o amor, a paciência e a dedicação dos que cuidam podem iluminar essa jornada, garantindo que, mesmo na desmemória, a vida de quem sofre continue sendo valorizada e digna.